segunda-feira, 13 de abril de 2020

Mutações são aleatórias?


Flor de Tulipa. A pétala parcialmente amarela é devido a mutação. By LepoRello - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=25850558

Esse post virou vídeo! Basta clicar aqui para assistir.

Sempre que algum desinformado aparece com a ideia de que Evolução por Seleção Natural se iguala a Evolução por acaso, é comum responder que a Seleção Natural em si não é aleatória. 

Diz-se que o processo se dá em duas etapas:

1 - Mutações aleatórias (surgimento da variação)
2 - Seleção (sucesso diferencial [não-aleatório] das variações)

Como diria Dawkins [1], trata-se de "seleção não-aleatória da variação aleatória". Mas será que é isso mesmo? Mutações são aleatórias? 

Bom, depende muito do que queremos dizer com "aleatório". Sabemos que as mutações não ocorrem aleatoriamente em se tratando da localização no genoma (algumas regiões estão mais sujeitas a mutações do que outras), tipo de mutação (alguns tipos são mais comuns que outros) e efeito na aptidão do organismo (é conhecimento comum que mutações vantajosas são mais raras que as não vantajosas) [2]. 

Então, em que sentido as mutações são aleatórias? Nesse sentido particular: 

Uma mutação deve ocorrer com a mesma frequência, independentemente dela ser vantajosa, prejudicial ou neutra.  

Nesse sentido, se uma mutação X ocorre com uma probabilidade F em um contexto ambiental em que ela é, digamos, vantajosa, então é esperado que ela ocorra como a mesma frequência F num contexto ambiental em que ela é desvantajosa, e F também em um contexto em que ela seria neutra (nem vantajosa, nem desvantajosa).

Sobre esse aspectos das mutações, o grande biólogo Theodosius Dobzhansky disse [3]:

"Parece uma deplorável imperfeição da natureza  que a mutabilidade não seja restrita a mudanças que aumentam a aptidão de seus portadores. Entretanto, apenas um Pangloss vitalista poderia imaginar que os genes saibam quando e onde é bom para eles mutar"


O biólogo evolutivo Dan Graur acha que nós deveríamos abolir a expressão "mutações são aleatórias" e optar por "mutações são indiferentes" [4]. Segundo ele, ao assumirmos essa definição de "aleatório" estamos cometendo um erro, pois "esta definição não tem nada a ver com aleatoriedade". De fato, matematicamente falando, "aleatoriedade" assume outro(s) significado(s) [5].

Isso é tudo, pessoal!

Referências

1 - DAWKINS, Richard. O relojoeiro cego. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

2 - GRAUR, Dan. Molecular and genome evolution. Sinauer Associates, 2016.


4 - https://judgestarling.tumblr.com/post/185365344166/mutations-are-not-random-mutations-are#disqus_thread

5 - Wikipedia contributors. (2019, November 21). Randomness. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 22:49, April 15, 2020, from https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Randomness&oldid=927234856





quarta-feira, 8 de abril de 2020

Hidroxicloroquina - A Evidência Até Agora

Hidroxicloroquina já é utilizada para tratamento de lúpus, atrite reumatóide e malária
Imagem disponível aqui.

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ATENÇÃO: texto postado no dia 08 de abril de 2020. 

Dadas as atuais circunstâncias, o brasileiro foi obrigado a aprender algumas palavras e termos  estranhos que a comunidade científica usa: coronavírus, SARS, SARS-CoV-2, azitromicina, e principalmente cloroquina e seu derivado, a hidroxicloroquina.

Mas o que são essas tais de cloroquina e hidroxicloroquina?

A cloroquina é uma droga conhecida já há bastante tempo por ser usada no tratamento contra malária e amebíase. Já a hidroxicloroquina, é um derivado da cloroquina que foi sintetizado pela primeira vez em 1946. A hidroxicloroquina é 40% menos tóxica para os animais do que a cloroquina, e além de seu uso na malária, é muito utilizada no tratamento de doenças autoimunes, que são aquelas em que o sistema imunológico se volta contra o próprio organismo.

(Daí a importância de não sair comprando hidroxicloroquina de maneira descontrolada. Vai faltar para as pessoas que realmente precisam. Não faça isso.)

Tá, mas como esses dois nomes vieram fazer parte do vocabulário popular?

Evidentemente que foi por causa da Pandemia de COVID-19 que estamos vivendo em 2020. Acontece que uma prática bastante comum é testar drogas já conhecidas e avaliar se elas são eficientes no tratamento de novas doenças. Dada a urgência de identificar agentes antivirais efetivos na tratamento da COVID-19, até agora não disponíveis, pesquisadores de todo o mundo começaram a testar drogas novas e antigas.

Em um estudo publicado na Cell Research, da Nature, no dia 04 de fevereiro de 2020, Wang et al. avaliaram os efeitos  in vitro de 7  medicamentos sobre o novo coronavírus. A conclusão a que chegaram foi a seguinte:

Nossas descobertas revelam que o remdesivir e a cloroquina são altamente efetivas, in vitro, no contrale de infecção pelo 2019-nCoV [o antigo nome do SARS-CoV-2]”.  

E os autores sugeriram que os efeitos da cloroquina e do remdesivir deveriam ser “avaliados em pacientes humanos sofrendo da doença do novo coronavírus”.

No dia 18 do mês seguinte, Liu et al., essencialmente o mesmo grupo de pesquisadores do estudo anterior, tiveram novo estudo publicado na Cell Discovery, também da Nature, intitulado “Hidroxicloroquina, um derivado menos tóxico da cloroquina, é efetivo na inibição de infecção por SARS-CoV-2 in vitro”.  

E a decisão dos pesquisadores em avaliar a hidroxicloroquina foi bastante inteligente. Embora a cloroquina tivesse se mostrado efetiva no estudo anterior, essa droga pode ser bastante tóxica para nós, seres humanos. Além disso, pelo menos na China, e é plausível que para boa parte do mundo também, a produção e estoque de cloroquina foi bastante reduzida, já que seu uso é infrequente. E é aí que entra a hidroxicloroquina. Como ela é bem menos tóxica e está mais disponível, uma vez que ela é utilizada amplamente no tratamento de outras doenças (como as já mencionadas doenças autoimunes), ela seria um bom candidato a medicamento caso demonstrasse capacidade de inibição do novo coronavírus.

A conclusão de Liu et al. foi a seguinte:

Em conclusão, nossos resultados mostram que a HCQ [hidroxicloroquina] pode inibir eficientemente a infecção por SARS-CoV-2 in vitro. Em combinação com sua função anti-inflamatória, prevemos que o medicamento tenha um bom potencial para combater a doença. Esta possibilidade aguarda confirmação por ensaios clínicos. Precisamos ressaltar que, embora a HCQ seja menos tóxica que a CQ [cloroquina], o uso prolongado e overdose ainda podem causar intoxicação. E o SI [índice de seletividade] relativamente baixo da HCQ requer um projeto e condução cuidadosos de ensaios clínicos para obter um controle eficiente e seguro da infecção por SARS-CoV-2”.

Ok. Até aqui, o que temos? Dois estudos mostrando que cloroquina e hidroxicloroquina tem efeitos de inibição do novo coronavirus in vitro. O “in vitro” é muito importante. Quer dizer que o estudo foi conduzido em laboratório e fora do contexto da complexidade dos sistemas vivos. Além disso, ficou muito claro como é preciso ter cuidado com esses medicamentos, dada a sua toxicidade.

Esses e outros estudos levaram ao "hype" da (hidroxi)cloroquina, mas um olhar mais cético e menos emocional, talvez, já poderia ter baixado a bola um pouco. Um breve revisão por Franck Touret  e Xavier De Lamballerie publicada na Antiviral Research (Touret & De Lamballerie, 2020) sumarizou muito bem alguns pontos importantes no que diz respeito a cloroquina:

- Dados in vitro sugerem que a cloroquina inibe a replicação do SARS Cov-2.
- Em pesquisas anteriores, a cloroquina demonstrou atividade in vitro contra muitos vírus diferentes, mas nenhum benefício em modelos animais.
- A cloroquina foi proposta várias vezes para o tratamento de doenças virais agudas em humanos sem sucesso.
- Os resultados de alguns ensaios clínicos atuais de cloroquina na China foram anunciados, sem acesso aos dados.
- A revisão por pares dos resultados e uma avaliação independente do benefício potencial para os pacientes são essenciais.

O “boom” mesmo da cloroquina ocorreu com a publicação, em 20 de março, de um ensaio clínico não-randomizado (já amplamente distribuído nas redes sociais dias antes) que contou com o envolvimento do pesquisador francês Didier Raoult. Nesse estudo, publicado no International Journal of Antimicrobial AgentsGautret et al. utilizaram a hidroxicloroquina e o antibiótico azitromicina no tratamento da COVID-19. A conclusão do estudo foi encorajadora:

Apesar de seu pequeno tamanho amostral, nossa pesquisa mostra que o tratamento com hidroxicloroquina está significativamente associado à redução / desaparecimento da carga viral em pacientes com COVID-19 e seu efeito é reforçado pela azitromicina”.

Entretanto, não durou para que os problemas com o estudo aparecessem. O primeiro problema está explícito no próprio título. Trata-se de um Ensaio Clínico Não-Randomizado (ECNR). E o que é isso? Segundo Nedel & Silveira (2016):

Neste tipo de estudo há um grupo intervenção e um grupo controle, mas a designação dos participantes para cada grupo não se dá de forma aleatória, como no ECR, mas conveniência do pesquisador”. 

O padrão de excelência seria um Ensaio Clínico Randomizado, o que segundo Nedel & Silveira (2016) é um:

Estudo intervencionista e prospectivo. Os participantes devem ter a mesma oportunidade de receber, ou não, a intervenção proposta e esses grupos devem ser os mais parecidos possíveis, de forma que a única diferença entre eles seja a intervenção em si, podendo-se, assim, avaliar o impacto na ocorrência do desfecho em um grupo sobre o outro. É o padrão de excelência em estudos que pretendem avaliar o efeito de uma intervenção no curso de uma situação clínica”. 

Um ECNR “não consegue controlar outros fatores que podem ter ocorrido concomitantes à intervenção implantada, e que podem ter contribuído para a mudança no desfecho” (Nedel & Silveira, 2016).

E os problemas não param por aí. Muitos pesquisadores se voltaram para o estudo e encontraram diversos problemas, tornando difícil listar todos aqui. Confira as referências para maiores detalhes. Por exemplo, quando questionados sobre certos aspectos do estudo, os autores se negaram, ao menos inicialmente, a fornecer alguns dados, o que é bastante estranho. Adicionalmente, parece ter havido análise diferencial entre pacientes, o que não é adequado.

Elisabeth Bik, uma microbiologista, foi bastante crítica ao estudo e levantou diversos pontos importantes, como a seguir:

"Embora o estudo tenha começado com 26 pacientes no grupo HQ ou HQ + AZ, são fornecidos dados de apenas 20 pacientes tratados, porque nem todos os pacientes concluíram o estudo de 6 dias. Os dados para esses 20 pacientes parecem incrivelmente agradáveis; especialmente os pacientes que receberam os dois medicamentos se recuperaram muito rapidamente.

"O que aconteceu com os outros seis pacientes tratados? Por que eles abandonaram o estudo? Três deles foram transferidos para a unidade de terapia intensiva (presumivelmente porque ficaram doentes) e 1 morreu. Os outros dois pacientes estavam com muita náusea e pararam a medicação ou deixaram o hospital [...] Então, 4 dos 26 pacientes tratados não estavam se recuperando.

Enfim, a enxurrada de críticas foi bem grande e no dia 3 de abril a International Society of Antimicrobial Chemotherapy (ISAC)  emitiu uma nota, na qual afirma “o artigo não atende ao padrão esperado da Sociedade, principalmente relacionado à falta de melhores explicações sobre os critérios de inclusão e a triagem de pacientes”. A ISAC ainda ressaltou que embora “reconheça que é importante ajudar a comunidade científica publicando novos dados rapidamente, isso não pode custar a redução do escrutínio científico e das melhores práticas”.

Um estudo conduzido por Jun Chen et al. e publicado ainda em março no Journal of Zhejiang University (Medical Science) chegou a uma conclusão não muito animadora sobre a hidroxicloroquina (sozinha, sem ter sido associada com o uso de azitromicina). O estudo avaliou 30 pacientes. 15 deles receberam hidroxicloroquina. Destes, 13 testaram negativos para o novo coronavirus após uma semana. Os outros 15 pacientes não receberam o medicamento e 14 deles testaram negativo, mostrando que não houve diferença na recuperação daqueles que tomaram hidroxicloroquina e os que não tomaram. Os autores do estudo, entretanto, ressaltaram que “estudos com maior amostragem são necessários para investigar os efeitos da HCQ no tratamento da COVID-19”.

No dia 31 de março foi depositado no medRxiv, um repositório de artigos que aguardam revisão e publicação na área da medicina, um artigo assinado por Zhaowei Chen et al. e que traz resultados de um ensaio clínico randomizado que avaliou a eficácia da hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19. Os resultados são bastante interessantes:

Em comparação com o grupo controle, o tempo de restabelecimento da temperatura corporal foi reduzido significativamente no grupo tratado com HCQ... O tempo de remissão da tosse reduziu significativamente no grupo tratado com HCQ. Notavelmente, um total de 4 dos 62 pacientes evoluíram para doença grave, todos pertencentes ao grupo controle, que não recebeu tratamento com HCQ. Quanto aos efeitos adversos, deve ser ressaltado que houve dois pacientes com leves reações adversas no grupo de tratamento com HCQ, um paciente desenvolveu erupções cutâneas, e um paciente experienciou uma dor de cabeça, nenhum efeito colateral severo apareceu entre eles.

Para explorar ainda mais o efeito da HCQ na pneumonia, comparamos e analisamos a TC do tórax dos pacientes no dia 0 e no dia 6. Em nosso estudo, a pneumonia foi melhorada em 67,7% (42/62) dos pacientes, com 29,0% moderadamente absorvidos e 38,7% melhoraram significativamente. Surpreendentemente, uma proporção maior de pacientes com pneumonia melhorada no grupo de tratamento com HCQ (80,6%, 25 de 31) em comparação com o grupo controle (54,8%, 17 de 31). Além disso, 61,3% dos pacientes no grupo de tratamento com HCQ tiveram uma absorção significativa da pneumonia.

Algo que Zhaowei Chen et alfazem questão de ressaltar é algo que já mencionamos aqui: os efeitos colaterais precisam ser levados a sério. Eles apontam que o tratamento com HCQ deve sem individualmente, levando em consideração as condições de saúde de cada paciente.

Finalmente, o estudo se encerra com a seguinte conclusão:

Apesar do nosso pequeno número de casos, o potencial da HCQ no tratamento da COVID-19 foi parcialmente confirmado. Considerando que atualmente não há opção melhor, é uma prática promissora aplicar  HCQ  a COVID-19 sob gerenciamento razoável. No entanto, ainda são necessárias pesquisas clínicas e básicas em larga escala para esclarecer seu mecanismo específico e otimizar continuamente o plano de tratamento.

É preciso ressaltar algumas coisas a respeito desse artigo. Embora muito animador, em se tratando de artigos disponibilizados no medRxiv, uma coisa deve ficar bem clara, e na própria página do medRxiv isso é reforçado: são artigos que ainda não foram revisados, que relatam pesquisas médicas que ainda precisam ser escrutinadas, avaliadas rigorosamente e, assim, não devemos basear a prática clínica em tais artigos.

Esse é meu breve apanhado de informações sobre a hidroxicloroquina até o presente momento (08/04/2020). Espero que tenha lhe sido de alguma serventia. Um forte abraço virtual. 

#FiqueEmCasa

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Referências:

WANG, Manli et al. Remdesivir and chloroquine effectively inhibit the recently emerged novel coronavirus (2019-nCoV) in vitro. Cell research, v. 30, n. 3, p. 269-271, 2020.

LIU, Jia et al. Hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquine, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell discovery, v. 6, n. 1, p. 1-4, 2020.

TOURET, Franck; DE LAMBALLERIE, Xavier. Of chloroquine and COVID-19. Antiviral research, p. 104762, 2020.

NEDEL, Wagner Luis; SILVEIRA, Fernando da. Os diferentes delineamentos de pesquisa e suas particularidades na terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 28, n. 3, p. 256-260, 2016.

GAUTRET, Philippe et al. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents, p. 105949, 2020.

CHEN, Zhaowei et al. Efficacy of hydroxychloroquine in patients with COVID-19: results of a randomized clinical trial. medRxiv, 2020.

Sobre o estudo controverso:

Nota da ISAC:

Estudo chinês com hidroxicloroquina e resultado indiferente:
CHEN, Jun et al. A pilot study of hydroxychloroquine in treatment of patients with common coronavirus disease-19 (COVID-19). Journal of Zhejiang University (Medical Science), v. 49, n. 1, p. 0-0, 2020.

Sobre o estudo chinês com hidroxicloroquina e resultado indiferente
https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-03-25/hydroxychloroquine-no-better-than-regular-covid-19-care-in-study

segunda-feira, 23 de março de 2020

COVID-19 e Tipos Sanguíneos - Alguma Relação?

Imagem disponível aqui.

Foi depositado no medRxiv um artigo intitulado "Relationship between the ABO Blood Group and the COVID-19 Susceptibility" [A relação entre grupos sanguíneos ABO e susceptibilidade a COVID-19). O estudo, conduzido por pesquisadores chineses, analisou 2173 pacientes com COVID-19, tratados em três hospitais em Wuhan e Shenzhen.

O que eles fizeram exatamente? Basicamente, eles compararam a distribuição de grupos sanguíneos do sistema ABO da população como um todo, em cada área, com a distribuição de tipos sanguíneos das pessoas cometidas pela COVID-19. Conforme Jacinta Bowler reportou no Science Alert:


"De acordo com o estudo, a população normal em Wuhan tem uma distribuição de tipo sanguíneo de 31% do tipo A, 24% do tipo B, 9% do tipo AB e 34% do tipo O. Os portadores do vírus, em comparação, foram distribuídos da seguinte forma: 38% do tipo A, 26% do tipo B, 10% do tipo AB e 25% do tipo O. Diferenças semelhantes foram observadas em Shenzhen".

Após implementação de métodos de análise, os autores chegaram às seguintes conclusões:

"Pessoas do grupo sanguíneo A têm um risco significativamente maior de adquirir COVID-19 se comparadas com pessoas de grupos não-A, enquanto o grupo sanguíneo O tem um risco significativamente menor de infecção em comparação com grupos não-O.

Devo dizer que "significativamente maior" e "significativamente menor", em se tratando de estatística, não significam, respectivamente "muito maior" e "muito menor". Quer dizer apenas que os resultados são suficientemente diferentes do que deveríamos observar se o tipo/grupo sanguíneo não exercesse influência alguma. No presente caso, basta você comparar a distribuições de tipo sanguíneo entre pessoas doentes e saudáveis (no que diz respeito a COVID-19) e ver que não há exatamente um abismo entre as proporções. Muito pelo contrário. 


Na discussão do artigo, os autores comentam o seguinte:


"Neste estudo, nós descobrimos que os grupos ABO exibem diferentes associações de risco para infecção com SARS-CoV-2 resultando em COVID-19. Especificamente, o grupo sanguíneo A foi associado com um aumento no risco, enquanto o grupo sanguíneo O foi associado com um decréscimo no risco, assim demonstrando que o tipo sanguíneo ABO é um biomarcador para susceptibilidade diferencial a COVID-19. Essas descobertas são consistentes com padrões de risco similares de grupos sanguíneos ABO para outras infecções por coronavírus estabelecidos em outros estudos. Por exemplo, Cheng et al. reportaram  que a susceptibilidade de infecção por SARS-CoV em Hong Kong era diferencial com relação aos sistemas de grupos sanguíneos ABO. Os autores descobriram que, comparados com funcionários de hospital de grupos não-O, os funcionários de hospital do grupo sanguíneo O tinham menores chances de ser infectados. Patrice et al. descobriram que anticorpos anti-A inibiam especificamente a adesão de células que expressavam proteína S do SARS-CoV a linhagens de células que expressavam ACE2. Dada a similaridade na sequência de ácidos nucleicos e na ligação ao receptor enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2) entre SARS-CoV e SARS-CoV-2, a menor susceptibilidade do grupo sanguíneo O e maior susceptibilidades do grupo sanguíneo, no que diz respeito a COVID-19, poderiam estar ligadas a presença de anticorpos anti-grupo-sanguíneo, particularmente anticorpos anti-A, no sangue. Essa hipótese necessita de estudos diretos para ser provada. Pode haver também outros mecanismos subjacentes a susceptibilidade diferencial dos grupos sanguíneos ABO a COVID-19, que requerem estudos adicionais para elucidação." 

Algo que é importante de ressaltar é que o "risco" a que os pesquisadores se referem na verdade trata-se do risco de precisar de hospitalização devido a COVID-19, não o risco de ser infectado pelo vírus. A razão disso é que os pacientes avaliados no estudo foram somente aqueles que desenvolveram sintomas intensos o suficiente ao ponto de buscar um hospital.  
Vale ressaltar, ainda, que o estudo, no momento em que escrevo, aguarda revisão por pares e, portanto, ainda não foi publicado. Inclusive, alguns pesquisadores expressam algumas suspeitas quanto às conclusões do estudo (veja aqui, por exemplo). Além disso, não há motivos para desespero se você é do grupo A. Nem de relaxo, se você é do grupo O.  

O que o estudo preliminar aponta é que há alguma diferenciação no risco de hospitalização e evolução da doença no que diz respeito ao sistema ABO para tipos sanguíneos. Não é tudo ou nada, 0 ou 1. Vários fatores podem influenciar no desenvolvimento e curso da COVID-19. 

Mais importante que isso, o tipo sanguíneo não determina se você vai ou não contrair o SARS-CoV-2. Portanto, faça um favor a si mesmo(a), fique em casa e tome as precauções necessárias.   



quarta-feira, 18 de março de 2020

Polêmica em âmbar: não é dinossauro?


Capa. Foto, tomografias e desenhos esquemáticos da Oculudentavis. Fonte: Xing et al., 2020.


Olá, tudo bem? Trago atualizações* sobre a mais recente polêmica paleontológica – Oculudentavis. Como vocês sabem, o  espécime, uma cabeça em âmbar, foi descrito em uma publicação da Nature como sendo um dinossauro avialano, mais  mais próximo das aves modernas do que o Archaeopteryx o é.
*atualizações das atualizações no final do post.

Porém, muitos especialistas duvidaram da alocação do Oculudentavis dentro do clado Avialae. Argumentaram que, na verdade, seria um lepidossauro. Ou seja, seria da linhagem da qual fazem parte os lagartos, serpentes (que também são lagartos) e o tuatara.

Pelo visto, não é nem mesmo um dinossauro. Sequer é um arcossauro. Há duas razões básicas pra gente concluir isso.


Primeira razão

A Mickey Mortimer, do The Theropod Database Blog, que inclusive foi uma das primeiras pessoas a questionar a identidade da Oculudentavis, incluiu o espécime numa análise filogenética mais apropriada para avaliar o posicionamento filogenético dele. Resultado? Recuperou Oculudentavis como sendo lepidossauro (fig. 1).

Figura 1. Posicionamento filogenético segundo Mortimer. Se Oculudentavis fosse um dinossauro, estaria junto do Archaeopteryx nessa filogenia. 


O Oliver Rauhut incluiu o Oculudentavis em outra matriz de análise filogenética, que ele considerou mais adequada para avaliar o posicionamento. Resultado? Lepidossauro, novamente (fig. 2).   
 
Figura 2. Comentário do Oliver Rauhut sobre o posicionamento filogenético a Oculudentavis. Direto do grupo Tetrapod Zoology, Facebook.


Basta? Não. O Andrea Cau, que é também um especialista bem conhecido, avaliou o posicionamento do Oculudentavis usando duas matrizes diferentes. O resultado: ambas indicam que é um lepidossauro (fig. 3).

Figura 3. Comentários do Andrea Cau sobre o posicionamento filogenético do Oculudentavis. Direto do grupo Tetrapod Zoology, Facebook.  

 
Conclusão: as análises alternativas, realizadas por pessoas diferentes, utilizando bases de dados diferentes, concordam que não se trata de um dinossauro avialano, mas um lepidossauro. É curioso, para dizer o mínimo, que um paper revisado por pares, publicado na Nature, tenha um resultado tão facilmente contestado.


Segunda razão

Essa é uma razão mais dolorosa. Lá no grupo do Tetrapod Zoology, atrelado ao Blog homônimo, foi realizado um "exposed" do primeiro autor do paper (fig. 4), Lida Xing.

Uma pessoa (fulano, vamos dizer assim) postou o seguinte [livre tradução]:

Puta merda...

A comunidade chinesa de paleontologia de vertebrados perdeu as estribeiras a respeito do paper do Oculudentavis na Nature, em particular no que diz respeito a integridade do autor principal, Lida Xing.

Exemplo: [Daí a pessoa deixou dois links]

O Xing tem reagido colericamente quanto aos questionamentos da identidade aviana do fóssil. Uma série de alegações embaraçosas  a cerca do manuscrito e do espécime em questão também emergiram.

Fiz algumas perguntas e obtive essa resposta de um paleontólogo de vertebrados chinês profissional, com quem trabalhei em estreita colaboração, as quais eu repito aqui com sua permissão (com correções em inglês)

[Daí lemos as palavras do pesquisador Chinês]

“Olá, fulano

Eu assumo que você sabe do paper do Oculudentavis khaungraae e as questões que emergiram. A coisa toda é uma piada e eu sinto muito pela Jingmai [uma das autoras do paper publicado na Nature]. O “primeiro autor”, Lida Xing, é um baita cuzão, trapaceiro e mentiroso, e um belo de um grande lixo.

1 – Ele contribuiu com quase nada no que diz respeito ao paper em si, apenas apresentou-os [os outros autores] ao proprietário do âmbar e assegurou que o espécime era aviano com imagens que ele forneceu.

2 – Ele sabe de outros espécimes possivelmente coespecíficos que claramente preservam anatomia pós-craniana típica de lagarto, desde muito antes do paper ser aceito, ainda assim ele escolheu não avisar a Jingmai até o último minuto, depois que ela já tinha gravado suas declarações agora amplamente públicas em apoio a sua descoberta.

Ele agora está sendo questionado por toda a comunidade chinesa de pesquisa em paleontologia de vertebrados e respostas adicionais de pesquisadores proeminentes que condenam o artigo da Nature serão publicadas em breve. Ele reagiu ferozmente a repreensão da  imprensa acadêmica, especialmente as declarações recentes de Wang et. al., que são altamente críticas a seu trabalho e tem usado seus seguidores nas mídias sociais como um comunicador científico popular para assediar e ameaçar vários desses autores. Ele afirma a seus seguidores nas mídias sociais que seu trabalho está sendo alvo de "figurões" e "senhores acadêmicos" do IVPP [Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology].

Obviamente, isso nem toca a enorme questão ética dos métodos de exploração de como o âmbar de Mianmar é coletado.

Diga a todos que você conhece para nunca colaborar com esse babaca”.

Figura 4. Sobre a conduta de Lida Xing.


É isso, gente. Infelizmente, um grande escândalo para a paleontologia. Algo deplorável, altamente condenável. É impressionante como algo assim acabou indo parar na Nature

Tendo em vista essas duas razões que eu apontei aqui, acho que é mais plausível concluir que Oculudentavis não é um dinossauro, mas um lepidossauro. 

UPDATE:

Tomei conhecimento de um artigo, ainda para ser publicado (mas já disponível aqui), no qual os autores analisam as tomografias originais e concluem que:

Um conjunto de sinapomorfias dos squamata, incluindo dentes marginais pleurodontes e um fenestra temporal inferior aberta, esmagadoramente apoiam sua afinidade com os squmata, e que a atribuição aviana ou dinossauriana da Oculudentavis está conclusivamente rejeitada.

UPDATE 2 (22/072020):


Os autores decidiram retirar o artigo. Em nota publicada na Nature, disseram:

"Nós, autores, estamos retirando este artigo para impedir que informações imprecisas permaneçam na literatura. Embora a descrição de Oculudentavis khaungraae permaneça precisa, um novo espécime não publicado lança dúvidas sobre nossa hipótese em relação à posição filogenética do HPG-15-3."

Você pode ler a nota original aqui:

Saiba mais:

O artigo que levantou a treta:

XING, Lida et al. Hummingbird-sized dinosaur from the Cretaceous period of Myanmar. Nature, v. 579, n. 7798, p. 245-249, 2020.


Post no The Theropod Database questionando o status dinossauriano da Oculudentavishttp://theropoddatabase.blogspot.com/2020/03/oculudentavis-is-not-theropod.html?m=1

Wang et al. 2020: 

(Em chinês) Wang, W.L. ZhihengY. HuM. WangY. Hongyu, and J. Lu. 2020. The "smallest dinosaur in history" in amber may be the largest mix-up in history, _. Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology. Accessed 2020-03-18.


terça-feira, 17 de março de 2020

Coronavírus - Lições Evolutivas

Eletromicrografia de vírions SARS-CoV-2 com coronas visíveis. By NIAID Rocky Mountain Laboratories (RML), U.S. NIH - https://www.niaid.nih.gov/news-events/novel-coronavirus-sarscov2-images, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=87089605.


Estamos em meio a uma pandemia de COVID-19, doença infecciosa cujo causador é o coronavírus SARS-CoV-2. Já tem muita gente boa, bem mais gabaritada do que eu, cobrindo o assunto. Por isso, quase não tenho abordado o tema. Hoje eu vou ressaltar algumas coisas, muito mais sobre a evolução do que a respeito do vírus e da doença em si. 

Foi publicado hoje (17/03/2020) na Nature Medicine um artigo sobre as possíveis origens do SARS-CoV-2. Logo de cara, preciso dizer que os autores são enfáticos ao dizer que "nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é um vírus construído em laboratório ou manipulado propositalmente".

Uma das evidências que apontam para essa conclusão é a seguinte:

"Enquanto as análises acima sugerem que o SARS-CoV-2 pode se ligar ao [receptor] ACE2 humano com alta afinidade, análises computacionais predizem que a interação não é ideal e que a sequência RBD [Receptor Binding Domain] é diferente daquelas que, para o SARS-CoV, foram demonstradas ótimas para a ligação ao receptor."

Se alguém tivesse de engendrar uma cepa de coronavírus para se ligar com maior especificidade aos receptores  ACE2 humanos, muito provavelmente teria utilizado as soluções otimizadas já conhecidas. 

Só há outra opção: o vírus evoluiu naturalmente. Sendo assim, é interessante notar como a evolução pode encontrar solução diferentes para um mesmo problema (se ligar a receptores eficientemente, no caso). Muitas pessoas são tentadas a olhar como os organismos biológicos resolvem seus problemas e concluir que, invitavelmente, aquelas soluções observadas são as únicas possíveis. 

No caso do SARS-CoV-2, não só o vírus encontrou uma solução diferente. Ela sequer é a mais otimizada. A evolução frequentemente apronta dessas. Ela encontra um caminho, mas nada garante que é o mais curto, o melhor, nem o único possível. Podem haver alternativas menos custosas (em termos de número de mutações, por exemplo), porém mais eficientes. Os criacionistas precisam entender isso, antes de qualquer cálculo de probabilidade tosco. 

No estudo publicado, os autores ressaltam outra característica notável do SARS-CoV-2:

"A proteína spike do SARS-CoV-2 tem um sítio de clivagem (furina) polibásico funcional no limite entre S1 e S2*, [o que foi adquirido] por meio da inserção de 12 nucleotídeos".

*S1 e S2 são domínios da proteína spike. Aliás, são as proteínas spike quem conferem o aspecto de "coroa". 

E daí? Bem, sem entrar nos detalhes, eu posso dizer que os autores argumentam que estudos permitem ligar a presença desse sítio de clivagem com a infectividade do vírus. Tá, mas e daí? 

Temos aqui um exemplo claro que como a evolução é capaz de alterar o genoma, inclusive adicionar "informação genética", seja de forma adaptativa (como parece ser o caso, uma vez que essa inserção pode contribuir para a infectividade do vírus) ou não. Sem mágica, apenas processos naturais. Outro aspecto que já está mais do que na hora dos criacionistas entenderem. 

Mas se entendessem, não seriam criacionistas. 


Mantenham-se bem informados. E cuidem-se!

O artigo:

Andersen, K.G., Rambaut, A., Lipkin, W.I. et al. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nat Med (2020). https://doi.org/10.1038/s41591-020-0820-9. 

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